Fiz meu curso de Técnico em
Eletrônica e Especialização em Monitores por Telefone. No
final, recebi certificado de conclusão (Válido no Paraguai),
um par de algemas e distintivo. Acho que se enganaram na
remessa dos brindes, mas tudo bem. O importante é que embora
as ligações telefônicas estivessem sempre com ruídos,
compreendi bem a maior parte do curso. Apenas uma vez a aula
foi trocada por falha técnica e eu tive que ouvir 27 lições
ensinando a cuidar bem de Hamster. Imprimi alguns centos de
cartões de visita e distribui em pontos estratégicos. Minha
maleta de ferramentas estava pronta: Um multímetro, um jogo de
chaves de fenda que comprei numa loja de 1,99 e que por sinal
uma delas tentou me matar por duas vezes, alguns pregos,
barbante, durex e meia dúzia de anzóis. Alguns dias depois
consegui meu primeiro cliente. Eram 9 da manhã quando alguém
ligou:
- Alô! É daí que conserta
monitores?
- Sim...
- O meu monitor não quer ligar mais. Você pode dar uma olhada?
- Posso sim. Qual a marca do seu aparelho?
- Acho que é... é Samgsuga! Pera aí, deixa eu ver direito... É
Samsungo.
.. Isso não iria fazer muita diferença, qualquer que fosse a
marca eu teria que encarar e botar o bicho pra funcionar. E lá
fui eu. Peguei o primeiro ónibus para o centro da cidade - e
quase foi o último. Enquanto ajeitava minha maleta em baixo do
braço para pagar e passar na roleta, o estopim do motorista
arrancou e eu dei uma cabeçada tão grande no suporte que devo
ter esquecido ali 50% do que sabia.
Cheguei na casa do Sr. Moacir alguns minutos depois.
Estavam todos na varanda me aguardando com grande ansiedade,
inclusive um cachorro rafeiro e tarado que tentou abusar de
minha perna. Nunca tinha visto uma coisas destas! Sacudi ele
para uma lado e para o outro até que o infeliz largou minha
canela e rolou morro abaixo.
Agora, estava diante do paciente. Um Samsung 3 NE.
Tentava enxergar os parafusos para abrir o gabinete mas a
sombra das cabeças dos filhos curiosos e do pai curioso me
atrapalhavam. Com muito custo e depois de ter quebrado alguma
coisa que estalou quando abri, fui logo alertando:
-Cuidado pessoal isso aqui tem alta tensão, chega a mais de 26
mil volts - é melhor sair todo mundo aqui do quarto enquanto
eu verifico o que esta acontecendo.
Meu papo não resolveu muito. Eles me olhavam meio incrédulos e
deram apenas um passo atrás. Mas logo iriam se convencer...
- Liguei a tomada e apertei o botão do power. O bichinho deu
um clique e nada. Desliguei. Aguardei alguns segundos e
abaixei a cabeça bem próximo para tentar ouvir de onde vinha o
clique. Liguei e levei um terrível choque na orelha - e até na
minha sombra na parede podia vê-la vermelha.
- Agora, a turma não só deu alguns passos atras como saíram
todos do quarto me deixando sozinho. Já estava totalmente
confuso. A cabeçada no ónibus, o cão tarado e depois o choque.
O que eu deveria fazer agora?
- verificar se tinha alta tensão?
- Sim, é claro, ouvi isto numa das lições do curso.
Peguei minha maior chave de fenda, e mesmo assim não tive
coragem de aproximá-la da chupeta. Peguei uma vassoura que
estava próxima à porta do quarto e prendi a chave de fenda no
cabo. Com isto, ganharia uma distância de quase dois metros
com o braço esticado. E lá fui eu... quando a chave já
penetrava por baixo da chupeta de alta tensão, um infeliz
abriu a porta com tanta força dando uma cacetada na parte de
baixo da vassoura, que eu simplesmente atravessei o Tubo com a
chave em meio a um grande estouro. PUUUMMMMM... Agora não
estava mais sozinho . Quase todos os vizinhos já estavam na
casa, e os que não entraram enfiaram a cabeça pela janela
perguntando se havia sido botijão de gás!
- Sem falar no cachorro tarado que latia igual a um
desesperado... Respirei fundo e tentei manter o controle da
situação...
- Calma!, esta tudo bem. Este tubo estava afetado pelo efeito
estufa e tive que explodi-lo antes que alguém se magoasse.
- Não pode ter sido vírus? - perguntou um idiota na janela.
- Vou ter que leva-lo para minha oficina pois lá tenho mais
recursos para diagnosticar.
. Os meses se passaram, e após muita procura consegui outro
tubo usado em uma oficina de Tv. Enquanto isso, seu Moacir
usava meu velho VGA Mono que fazia sumir a tela quando tinha
vontade.
Passava horas e mais horas olhando para a placa do monitor sem
saber direito o que fazer. Isso me fez lembrar a dor de
cabeça que me deu quando desmontei o radio do meu tio e não
conseguia mais colocar aquela maldita cordinha que mudava as
estações (tive que adaptar uma manivela no gabinete)!
- Resolvi então medir todos os díodos. Foram dúzias e em cada
5 que media um parecia estar morto, mas ressuscitava quando
soltava uma perna e media novamente. Liguei para o Suporte
Técnico do meu curso via telefone. Expliquei ao sujeito o que
estava ocorrendo...
- Quando aperto o botão faz um clique e não acontece nada,
etc., etc...
Dias depois chegou a resposta pelo correio: Experimente
lubrificar o cano com óleo menos viscoso e certifique-se de
esteja usando balas no calibre apropriado. O jeito era
continuar tentando. Bom, os díodos estavam todos o.k..
Resistências? nem pensar! - iria perder noites e mais noites
com tabela de cores. Vamos então para os transístores. Comecei
pelos maiores, e foi aí que veio a grande inspiração! Um
deles, um C47 qualquer coisa parecia ter ido a praia com óleo
de bronzear e tudo. Mal dava para ler o valor. Comprei outro e
troquei. Devo omitir aqui que estourei uma trilha com meu
ferro de solda, mesmo porque consegui emendar com um pedaço de
fio. Horas depois estava tudo montado. Liguei a tomada junto a
um disjuntor, me afastei um pouco e liguei o bicho ainda meio
tremulo. Parecia incrível, mas o led estava aceso. Corri para
pegar o micro e liguei, e lá estava a imagem! - é verdade que
ficou um pouco de lado, mas com um pequeno ajuste no pescoço
do usuário tudo ficaria bem... Nesse meio tempo já tinha
outros equipamentos na bancada, e o primeiro da fila era uma
tv p&b de 5" que ainda vinha com radio, toca-fitas, relógio,
etc... Mas isso já é outra história.
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